Como deixar a IA “Lembrar” da Sua Turma — E O Que Fazer Depois que o Gemini Descontinuou os “Gens”

Antes de tudo, quero ser honesto com você: a IA só entrega o melhor resultado quando ela conhece quem está sentado na sala. Não é só o número de alunos, nem o assunto que parece. É o perfil da turma, os alunos que precisam de atenção especial, as dificuldades de concentração, as metodologias que já foram testadas, e o que a avaliação mostrou na última semana.

No meu caso, o método era assim. Eu usava a opção dos “Gens” no Gemini, deixava o perfil da turma carregado toda vez que abria uma conversa, e tudo era mais rápido. O problema: o Google decidiu descontinuar os Gens. E o que eu fiz? Eu adaptei. Veja como.

Isso aqui não é “IA resolve tudo em 5 minutos”. É o contrário: a IA resolve 70% do trabalho, e o professor cuida dos 30% decisivos. EU vou te mostrar como replicar isso com um Google Docs + PDF, mesmo sem depender do recurso que sumiu.

1. A IA só é útil se ela souber quem é a turma

Se você perguntou a uma IA por “ideias de aula de História”, ela vai te dar uma lista. São listas genéricas, que valem para qualquer sala, qualquer ano, qualquer cidade. Funciona, mas não é eficiente. O problema não é a inteligência da ferramenta — é a falta de contexto. A IA não sabe quantos alunos tem na turma, quem se concentra e quem discute, quais alunos têm dificuldade de leitura ou de foco, quais metodologias já foram testadas e funcionaram, o que a avaliação anterior mostrou como ponto fraco, e como se comportam os alunos com dificuldades de aprendizagem ou de inclusão.

Repare: ninguém quer que a IA “pense” por você. Toda escola tem sua realidade. Se você vai usar a IA no dia a dia, o ideal é que ela entenda a turma daquela escola, daquela sala.

2. O que eram os “Gens” e por que eram úteis

No Gemini, havia uma funcionalidade chamada “Gens”. Você poderia criar um perfil específico, colocar o nome e as instruções, deixar salva na IA, e todos os seus futuros verbetes seriam orientados pelo perfil.

Imagine um caderno digital que a IA não abre toda hora. Você abre o caderno, coloca o perfil, e a partir daí a IA responde levando em conta o que você escreveu.

No meu caso, para cada turma, eu criei um gen. Ele tinha o nome da turma, o ano, o perfil que eu tinha por sentido, a descrição do que eu observava na turma resultado das avaliações e percepções neste mesmo espaço eu adicionava instruções. Na parte de instruções, coloquei: “Você é um copiloto pedagógico especializado em História”. Ou seja, eu definia quem era, o que ele fazia e onde deve buscar a informação, como a BNCC. Além disso, eu definia o que a IA deve fazer: analisar as dificuldades apresentadas, destacar os pontos fortes do grupo, manter um tom colaborativo focados em soluções e evoluções pedagógicas, e usar o conhecimento para adaptar o nível do aluno.

E os dados da escola. Aí, na realidade escolar, eu coloquei o que tinha na escola: pizarrão, livros didáticos, tablets. Também defini o tempo da aula e um fluxo de trabalho: sempre que conversasse com ele, ele mostraria quantas aulas dedicaria ao tema, perguntaria o que eu queria, e então daria uma resposta.

Na prática, o fluxo era:

  1. Eu abria o gen;
  2. Ele carregava tudo;
  3. Só começava a conversa com o comando certo;
  4. A IA já tinha contexto. Não precisava de explicação;
  5. Ao longo do bimestre, a cada avaliação, eu passava os resultados;
  6. A IA atualizava o perfil: o que melhorou, o que não funcionou, quem mostrava evolução;
  7. A cada bimestre, o perfil ficava mais fiel à realidade.

O resultado não foi mágico. Foi organizado. E o mais importante: a IA continuava no caminho certo, porque não precisava começar tudo novamente.

3. Por que o Gemini descontinuou os “Gens”

O Google decidiu descontinuar os Gens. Isso pode te assustar, mas não é o fim do método. O que aconteceu foi o fim de uma opção específica, não o fim da ideia. Até o final de março do ano em que o vídeo foi gravado, os professores conseguiam continuar usando, mas o recurso vai deixar de existir.

Para mim, isso foi uma lição: não faça toda a sua inteligência depender de um único recurso da ferramenta, que pode mudar ou sumir. Meu perfil de turma não poderia depender de um botão que o Google pudesse desligar a qualquer momento. Precisava de algo mais estável.

E foi ali que a solução veio.

4. A solução: Google Docs + PDF + IA

A solução foi simples, mas exigiu organização:

  1. Crie um documento no Google Docs para cada turma. Denomine por série, turma e ano, por exemplo: “9º Ano C – 2026”.
  2. Cole o perfil da turma no documento. Isso mais do que números. Pelo menos, deixe um resumo. Se você usar uma conta coorporativa o Google alega que não usar esses dados para trinar o modelo, sendo assim os dados dos aluno não ficam expostos, neste caso, exclusivamente na conta coorporativa educacional você pode, segundo o Google, que pode colocar os dados reais dos alunos
  3. Transforme o documento em PDF e carregue o PDF no chat de IA (aqui, é o Gemini, mas funciona em outros modelos, se o upload de arquivo for permitido).
  4. Na primeira mensagem, peça para a IA ler o PDF e seguir um contexto.
  5. Depois disso, a IA “entende” a turma. Para criar atividades, sugerir metodologias, planejar avaliações, ajustar rota.

A partir daqui, o processo é:

  • Você define o tema ou a unidade;
  • A IA sugere a roda, a sequência, as avaliações;
  • O professor revise e decide;
  • No fim do bimestre, você traz as notas;
  • A IA atualiza o perfil, mostra o que melhorou e o que precisa de atenção;
  • Você atualiza o documento com as ações.

5. Como replicar esse método no seu dia a dia

Aqui vai o passo a passo completo, seguindo a ideia que o vídeo mostra. Considere que você vai usar o Google Docs + um PDF que você envia para o chat de IA. Ao seguir, o planejamento será muito mais rápido.

  1. Crie o “Caderno da Turma” no Google Docs.

    O que colocar no documento:

    • Série/Ano: 9º Ano C;
    • Turma: C — 2026;
    • Número de alunos: 31;
    • Dados gerais: turma atuante; 3 alunos com dificuldade de leitura; 2 alunos com TEA; 1 aluno com dificuldade de foco;
    • Metas do ano: média acima de 6,0; participação nas rodas; fim de ano com mais autonomia;
    • Metodologias preferidas: projetos, sala invertida, discussão, leitura compartilhada;
    • Avaliação: quizzes, trabalhos, provas, rubricas;
    • Como a entrega: diário de bordado, slides, folha de correção.

    Dica de ouro: nunca use nomes reais. Se precisar citar casos, use “Aluno A”, “Aluno B”, “Aluno C”. A privacidade dos alunos importa.

  2. Salve o PDF e carregue no chat de IA.

    O que fazer:

    1. Abra o Google Docs;
    2. Vá em Arquivo → Baixar → Documento PDF;
    3. Abra o chat do Gemini (ou outro modelo de IA);
    4. Envie o PDF;
    5. Envie a mensagem abaixo.

    Mensagem para usar:

    “Você vai receber um PDF. Leia-o e, a partir de agora, responde às minhas perguntas sempre levando em conta o perfil da turma que está descrito. Não invente. Se algo não está claro, pergunte. Inicializei a turma de 9º ano C, com 31 alunos, além de dificuldades de leitura e foco. Ao longo do tempo, o PDF vai ser o único arquivo que a IA vai consultar.”
  3. Planeje o bimestre (ou o tema).

    Prompt base:

    “Com base no perfil da turma que está no PDF, sugiro uma sequência para o próximo bimestre. Quero: 1 tema por unidade, 1 metodologia por semana, 1 avaliação por bimestre, e 1 atividade de inclusão por unidade.”

    O que a IA vai gerar: uma tabela tipo unidade/mês/metodologia/avaliação, com sugestões concretas.

  4. Ajuste a rota conforme o desdobro.

    Prompt:

    “Na unidade de Fevereiro, os alunos tiveram mais dificuldade com leitura de texto argumentativo. Me sugere como ajusto a rota: qual atividade daquela semana eu poderia substituir pela análise de notícias, e qual conteúdo do dia a dia poderia ficar de fora ou em menor profundidade?”

    Resultado: a IA propõe alternativas. Você assinala o que vai executar e o que não vai.

  5. Após a avaliação: leve os resultados de volta.
    1. Coloque as notas de um bimestre no documento;
    2. Envie ao chat de IA: “Aqui estão as notas de 31 alunos. Levando em conta o que foi planejado e o que aconteceu, atualize o perfil da turma: o que ficou bom, o que não funcionou, e quem está evoluindo.”

    A IA pode responder com um resumo: “12 alunos evoluíram na redação; 4 alunos mantiveram dificuldade em interpretação; 2 alunos precisam de reforço individual.” Atenção: a IA resume. O professor valida.

  6. Pergunte para a IA o que ela pensa.

    Prompt: “Pergunte: o que você considera os 3 principais pontos de força e os 3 principais pontos de atenção da turma, com base nas notas deste bimestre, e sugerir uma estratégia para o mês seguinte.”

  7. Atualize o perfil do caderno.

    Atualize no documento:

    • Dificuldades concentradas: adicione o que a IA apontou;
    • Evoluções: registre o que a turma deixou de ter;
    • Mudanças no planejamento: anote o que foi alterado e por quê.

    Regra de ouro: a IA não grava sozinha. O professor guarda e atualiza. A cada bimestre, o caderno fica mais inteligente.

  8. Repita o ciclo.

    O processo se repete a cada bimestre. Cada leve de notas amplia o perfil. Cada plano bate em campo com a turma real. No 2027, o professor não começa do zero. Ele parte do que a IA e ele juntos descobriram no ano anterior.

6. O que a IA faz e o que não faz

Vamos deixar claro a filosofia do método:

  • A IA pode fazer 70% do trabalho bruto: gerar rascunhos, sugerir rotas, organizar avaliações, listar atividades, montar tabelas, levantar dúvidas de metodologias.
  • Os 30% decisivos são do professor: o comando certo (o prompt), a escolha das fontes, a curadoria dos materiais, a revisão final e a decisão.

Não devemos prometer milagres. Exige tempo. Em 20 minutos, você pode deixar um planejamento mais alinhado. Isso é eficiência real — não é milagre.

“A IA é uma raquete de badminton que a IA carrega. Mas o professor é o jogador que decide o movimento.”

Este post foi baseado no vídeo “Como Fazer a IA ‘Lembrar’ da Sua Turma” e segue a metodologia criada por professor de História, para professores. A tecnologia é aliada, mas a decisão sempre é do professor.